Gilmar, Dino, Zanin e Xandão. Os quatro supremos eram um só hoje no julgamento do fim do mundo, em uma estratégia de guerra que parece ter sido milimetricamente pensada e botada em prática. Logo cedo já ficou claro do que se tratava: queimar de largada os ministros que apoiariam Mendonça com mensagens vazadas, acusar Mendonça de querer interferir nas eleições presidenciais e levantar suspeitas de que isso tudo nada mais é do que uma tentativa dos Estados Unidos de interferir na soberania do País. Ao Mendonça, sobrou o Fux. Mas Mendonça precisa tomar muito Biotônico Fontoura. Desequilibrou-se quando Gilmar Mendes fingiu estar desequilibrado, caindo na esparrela do voto de vista do supremo Dino. Vem que eu vou te contar tudo.

O julgamento de hoje era para que o Plenário do Supremo decidisse se o supremo Xandão deveria ser investigado. Um relatório da Polícia Federal mostrou que o Vorcaro trocou mensagens no zap com "Alexandre de Moraes Brasília". Só ficamos sabendo das mensagens enviadas pelo Vorcaro, mas a cada uma delas era possível visualizar Xandão respondendo como se advogado de Vorcaro fosse. Ele não era, mas sua esposa, sim, como mostrou um contrato de R$ 131 milhões, que foi confirmado e reconfirmado pelo próprio escritório de Vivi Barci. Pelo relatório da PF, ficamos sabendo inclusive que este contrato foi alterado por Xandão em algum momento (ou pelo menos visualizado).

O tal relatório da PF foi feito a pedido do supremo Mendonça que mandou o caso para o plenário. Mas tirou o sigilo do processo e todos ficamos sabendo das conversas. Xandão reagiu pedindo investigação contra o supremo Mendonça usando um relatório da inteligência da Polícia Federal que dava conta de que o ministro teria direcionado a investigação contra o próprio Xandão. E foi assim que o caso foi parar no Plenário.

Diga ao povo que me retiro

Mas o caso virou do avesso quando já logo na abertura o supremo Kassio Nunes se declarou impedido de votar. Logo cedo vazaram as mensagens do celular do Vorcaro (mensagens entregues a Gilmar, Zanin e Xandão no dia anterior pela Polícia Federal). Contratos com o filho do ministro, mensagens que diziam que ele tinha ficado com uma garota de programa que teria custado R$ 10 mil e que foi paga por Vorcaro, uma mensagem de Kassio pedindo uma viagem para a família com o operador de turismo do Vorcaro. Mas Kassio justificou sua retirada dizendo que não se sentia confortável em ficar num julgamento que poderia ter impacto nas eleições já que ele é presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Era um a menos para ajudar o supremo André dos Céus Mendonça. Toffoli, enrolado com o Tayayá já há alguns meses, também ficou de fora. Gilmar Mendes botou então a parte seguinte da estratégia em curso: abrir uma questão de ordem para que os processos de Xandão e do Mendonça fossem julgados juntos na próxima semana. E o que isso significa? Abriria uma sessão de votação, com cada ministro justificando seu voto, para só depois saber se iriam ou não votar o caso do Xandão.

Dino, o fanfarrão

A partir daí o supremo Dino se encarregou de mostrar a fragilidade da própria presidência do supremo, diga-se, o supremo Fachin (que em uma estratégia infeliz da TV Justiça ficou quase o tempo todo em evidência enquanto os outros ministros tretavam).

A discussão levantada claramente por Dino era de que o supremo Fachin tinha que definir um rito para saber se ministros supremos seriam investigados porque não seria só Xandão e Mendonça. Ele se referiu às mensagens vazadas contra o supremo Nunes Marques e também conversas que o filho de Luiz Fux teria tido com o "irmão" Vorcaro (impressionante como Vorcaro era irmão de todo mundo).

Além disso, trouxe o caso das notícias de que autoridades americanas estavam de olho no julgamento do Supremo para aplicar sanções contra o Xandão, mas já mirando também o próprio Dino e Gilmar Mendes.

O decano Dom Gilmar

Gilmar Mendes ainda foi mais fundo e já mostrou que estava pronto para a briga quando inferiu que Mendonça, Nunes Marques e Fux agiram coordenadamente para afastar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Mendonça botou para votação às dez. Às 10:01, Gilmar pediu vistas. Às 10:04, Fux votou. Às 10:06, Nunes Marques. "22 páginas", disse Gilmar recomendando que quem quisesse tirar chefe de polícia da função tinha que se algemar antes de fazer isso ou pedir a intervenção de Deus, já que essa é uma prerrogativa do presidente da República. Fux estrilou dizendo que ninguém ia tirar sua independência e que nunca viu um delegado da polícia peitar o supremo. Queria dar um recado. Foi quando uma tímida reação ensaiada parece ter surgido. Fux e Mendonça falaram em "polícia paralela". Mas o argumento não se sustentou e nunca mais se falou do assunto no restante da sessão.

O outro argumento para tentar desmontar o Mendonça também já foi levantado logo no começo: o supremo Mendonça estaria agindo de forma a interferir nas eleições pela escolha do timing da abertura do sigilo do caso das supostas mensagens entre Xandão e Vorcaro.

O careca do Supremo

Em algum momento, o supremo Xandão partiu para o ataque. Ah, vá! "Eu tenho testemunhas". Ficou todo mundo "oi?". E ainda disse que teria testemunhas que são policiais e advogados. E que eles poderiam contar que o supremo Mendonça agiu especificamente contra Xandão.

"Mentira". Mendonça tentou se defender.

"Vamos então chamar as testemunhas?", respondeu Xandão. Aqui do outro lado da tela, ficamos esperando de repente as testemunhas entrarem. Ah, era só retórica.

Mas Xandão, darling, Xandão estava preparadíssimo para a guerra.

Lembra que passamos os últimos cinco dias sem grandes notícias apesar da quebra generalizada de sigilos do caso do Banco Master. Xandão tinha o processo que ele queria. A Pet 15.625 em que o supremo Mendonça, no dia 18 de maio, deu uma decisão para afastar um perito que teria vazado informações sigilosas para a jornalista Malu Gaspar. Na sua decisão, Mendonça cita o contrato com o escritório de Xandão e as mensagens entre Vorcaro e Xandão (eu fui correndo lá ler a PET, BRASEW, e tava tudo lá mesmo).

Se Mendonça já sabia, em maio, que as mensagens existiam, como pode ter pedido somente no fim de agosto para a Polícia Federal produzir em 72 horas um relatório sobre as mensagens específicas que incriminam Xandão? E detalhe: às vésperas do 7 de setembro? Estava pronta a tese de uso político por parte do supremo Mendonça.

Mendonça tentou se explicar (sim, teve todo tipo de explicação mesmo eles não tendo discutido sobre se vão ou não investigar Xandão). Ele disse que havia mensagens perdidas que ele não sabia para quem Vorcaro tinha enviado, podia ser para seu advogado, pedindo para ver se Andrei e Paulo não deixariam a polícia sacaneá-lo. E que essas mensagens surgiram somente em junho. E que no fim ele mesmo reconhece que não tinha nada contra o Paulo.

Gonet agradece

Neste momento, o procurador-geral Paulo Gonet, que nem tinha aparecido direito, não sabemos se dormia, pediu a palavra e agradeceu a deferência. Mendonça quis responder e de repente, do nada, o supremo Dom Gilmar vem com tudo atacando o supremo Mendonça. Mendonça caiu na armadilha, respondeu exaltado.

Mendonça do céu

Gilmar disse para ele não chorar. Aff. O supremo Dino na derradeira voadora em cima do Fachin pediu vistas alegando que o supremo presidente ficou horas vendo o circo pegar fogo sem fazer nada. E ameaçou: o senhor terá que presidir sessões como essa por dezenas de semanas. Isso significa que muitos ministros supremos serão investigados. Com o pedido de vista, nem o julgamento da questão de ordem terminou. Dino agora está com o mando do jogo. Ele tem 90 dias para pautar novamente. Pode esperar passar as eleições. Ou não. Como vamos saber qual é a nova tática para a próxima batalha?

O pedido de vista

Mas na próxima semana o julgamento de André Mendonça já está marcado. Será que ele vai se preparar melhor para a guerra? Fachin vai manter o julgamento? No dia do André, estaremos a menos de duas semanas das eleições. Como estas tretas supremas vão influenciar o voto?

Por hoje, Lula se livrou de ter que partir pra cima do Xandão (era a recomendação caso o Supremo não mandasse investigá-lo, mas no fim nem julgou o caso). Mas ao mesmo tempo o cheiro de pizza que ficou no ar vai fazer o voto em Flavitcho Bolsonaro ganhar força? O eleitor bolsonarista que estava adormecido foi acordado por todas essas tretas com Xandão e Mendonça. O que mais virá daqui pra frente?

Não sabemos. É por isso que vamos terminar essa edição com o último voto do dia. O da ministra Cármen Lúcia:

"Me sinto envergonhada, peço desculpas ao Brasil".

E a suprema Carminha deixou claro que seu voto é para que todo mundo seja investigado. Como ela diz, ninguém vai querer que fique pairando uma dúvida sobre si. Será?

Os ingleses

As tretas supremas só estão no ar por causa de vocês. É porque todos os dias chegam os recadinhos pelo Pix. Hoje vi o das terras inglesas (bem em dia de guerra) e o de Santa Cruz do Rio Pardo. Lemos todos.

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