Sei que você deve estar ansioso para saber tudo sobre a abertura do sigilo de boa parte dos processos do caso Master, que o supremo Mendonça fez na sexta à noite, mas a real é que nada de muito bombástico apareceu nos documentos. Tanto que a procuradoria geral seguiu dizendo no sábado que André Mendonça não abriu tudo. Tanto que o supremo Zanin seguiu pedindo o conteúdo completo do celu do Vorcaro. Tanto que o supremo Dino resolveu abrir, em pleno domingão, o sigilo da investigação da ONG ligada à produtora do Dark Horse. E na sua justificativa chegou a destacar uma possível conexão com o PCC. Socorro, BRASEW. É domingo e a pedido dos leitores, aqui estamos nós.
O filme sobre Jair Bolsonaro começou com Jim Caviezel (o astro hollywoodiano) e quando começaram a falar que um ator internacional estava gravando um filme de Bolsonaro ninguém acreditou. Sério, todo mundo achou que era fake news. IA, sei lá, essas coisas. Daí surgiu o zap do Flavitcho para o Daniel Vorcaro (o astro do Madame Satã). Vieram então as emendas parlamentares do Frias e o contrato de Wi-Fi do Ricardo Nunes (o prefeito de São Paulo). E agora, de repente, chegamos ao PCC.
A treta é a seguinte. Neste domingo, o supremo Flávio Dino retirou o sigilo da investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre o Instituto Conhecer Brasil, que é a ONG ligada à produtora do filme Dark Horse. No despacho, o ministro afirmou que está se fortalecendo a hipótese de um esquema sofisticado de desvio de recursos públicos, provenientes de emendas parlamentares e da Prefeitura de São Paulo, que alcançaria organizações vinculadas ao Primeiro Comando da Capital. Ahã.
Mas calme-se: Dino não afirmou que o PCC financiou diretamente o filme, muito menos que Flávio Bolsonaro tenha relação pessoal com a facção. O que ele disse foi que a linha investigativa encontrou possíveis vínculos com o PCC dentro da mesma arquitetura financeira que pode ter desviado dinheiro público para a produção do filme de Jair. E autorizou que seja feita uma investigação financeira nas contas da produtora.
Vamos certinho ao que disse o supremo Dino? Aqui:
"No curso da investigação se fortalece a hipótese de imbricação indissociável em um sofisticado esquema de destinação e desvio de recursos públicos, com destaque para emendas parlamentares federais e para a prefeitura de São Paulo. Essa organização alcançaria, inclusive, vínculos com a facção PCC (Primeiro Comando da Capital), consoante linha investigativa mencionada nos autos."
O que nos leva a concluir que o filme sobre Bolsonaro pode não ter encontrado distribuidora, mas já encontrou todos os gêneros: drama familiar, policial, filme de banco e agora crime organizado.
Por que destacamos o PCC?
Como já vimos em tantas eleições, mais cedo ou mais tarde a direita vai vir com a história de que Lula é ligado ao PCC. Então o fato de o PCC aparecer em uma investigação sobre a produtora do Dark Horse pode ser um tipo de vacina.
E como era esperado, Dudu Bolsonaro já veio com o seguinte argumento: "o sujeito que subia em favela dominada pelo crime organizado sem escolta policial está aí tentando nos convencer que o PCC resolveu financiar o filme do cara que eles querem matar."
E durma com um barulho desses.
🎬 Mário entrando numa Frias
Dino afirmou que Mário Frias aparece reiteradamente nos autos e, "no terreno hipotético da investigação", teria papel de liderança na suposta arquitetura criminosa.
A investigação apura R$ 2 milhões em emendas destinadas por Frias a entidades ligadas a Karina Gama, produtora executiva de Dark Horse. Também investiga um contrato de R$ 157 milhões da Prefeitura de São Paulo com o Instituto Conhecer Brasil para a instalação de pontos de Wi-Fi. A apuração suspeita que pelo menos R$ 6,17 milhões tenham sido transferidos para outra entidade ligada a Karina para ocultar a origem pública do dinheiro. A prefeitura e Karina negam irregularidades. Frias chama a investigação de "cortina de fumaça" eleitoral.
Um organograma apreendido pela polícia ainda coloca um "Mário" como sócio da produtora do filme nos Estados Unidos. O documento não traz o sobrenome; os investigadores apuram se a referência seria a Mário Frias. Portanto, isso permanece como hipótese, não conclusão.
E por que essa treta toda com a produtora? A Karina Gama que é a dona da produtora que nunca fez um filme antes, estreou num filme com uma das maiores verbas da história do país. A Karina Gama que nunca trabalhou com Wi-Fi, ganhou pela sua ONG uma licitação multimilionária da prefeitura de São Paulo para fornecer Wi-Fi. Mas somente a investigação poderá dizer o que tem de errado. Karina diz que está sendo pressionada a delatar, mas não será um Mauro Cid porque ninguém cometeu crime.
Para os perdidos. Não se perca, temos duas investigações em andamento sobre o Dark Horse. Uma delas é sobre a destinação irregular do dinheiro público por meio de emendas parlamentares e sobre o contrato da prefeitura de São Paulo com a ONG ligada à produtora do filme, e a investigação está em um processo nas mãos do supremo Dino. A outra é uma investigação sobre o financiamento do Vorcaro para o Flavitcho Bolsonaro, que só ficamos sabendo oficialmente da sua existência quando o supremo André foi convidado a retirar o sigilo das questões do Master.
O Flavitcho
Flavitcho Bolsonaro tem dito que acha ótimo que se quebrem todos os sigilos, que ele não tem nada a ver com o financiamento do filme (fingindo que não foi ele que mandou áudio no zap para o Vorcaro) e que é só ir perguntar para a produtora do filme o que se passa. Mas eis que com a quebra do sigilo ficamos sabendo que nem a polícia consegue explicações da produtora do filme nos Estados Unidos. Ahã. Existe a Go Up que produz o filme no Brasil e a GO UP que recebeu o dinheiro do Havengate e atua nos Estados Unidos. Aí, a produtora dos Estados Unidos disse o quê para a polícia? Tem mandado? Sim, darling, precisa de cooperação internacional para ter informações da produtora americana.
E o Havengate é o fundo que recebeu quase R$ 70 milhões de uma das empresas do Vorcaro e não sabemos se o dinheiro foi de fato usado no filme ou para financiar o Dudu ou sei lá o que mais. Esse fundo é aquele criado pelo advogado de Dudu Bolsonaro lá no Texas.
A ponte do rock
No outro lado do roteiro internacional, o candidato do MBL, Renan Santos, acusou a campanha de Flavitcho de receber apoio ilegal da Rockbridge Network, rede americana de financiadores conservadores criada por J.D. Vance e Chris Buskirk, sócio de Donald Trump Jr. A história foi divulgada pelo site Amado Mundo.
Segundo Renan, o empresário Tallis Gomes (aquele do G4) e Pedro Sang teriam aproximado a Rockbridge de candidaturas brasileiras. A rede teria procurado inicialmente Tarcísio de Freitas e depois se aproximado de Flávio. Renan também associou o grupo a interesses na exploração de terras raras brasileiras. Mas o Tallis e o Sang negaram ter intermediado qualquer financiamento político.
Mas a denúncia foi suficiente para o Lindbergh Farias acionar o Supremo e pedir a apuração de eventual financiamento estrangeiro, caixa dois ou abuso de poder econômico.
📱 O celular do Vorcaro
O supremo Mendonça insiste que não vai ser bom os ministros supremos receberem a íntegra do celular de Vorcaro e alega que nem ele recebeu tudo porque isso poderia atrapalhar as investigações. Mas Xandão, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes insistem que querem porque querem acesso às mensagens. Zanin argumentou que a defesa de Vorcaro já possui uma cópia e que seria absurdo os advogados poderem ler dados aos quais os próprios julgadores não têm acesso.
No sábado, Fachin deu 24 horas para a PF informar onde estava o celular e em que condições. Neste domingo, a PF respondeu que o original nunca deixou sua custódia, está íntegro e que possui condições técnicas de produzir cópias para todos os ministros. A corporação também corrigiu Mendonça: o HD não foi enviado espontaneamente, mas por solicitação formal de seu gabinete.
Depois da resposta, Mendonça reiterou que é contra a abertura integral e pediu a Fachin que investigue se delegados estariam sofrendo pressão interna para liberar o material. Disse que jogar novos elementos na sessão de terça poderia "tumultuar" o julgamento e desviar o foco.
O supremo Zanin deu então uma ordem direta para a Polícia Federal para que entregasse tudo até às 23h deste domingo.
Estratégia, do grego strategía
A estratégia dos ministros supremos parece clara: ficar adiando o julgamento de terça. Fachin já determinou que os ministros só vão julgar o caso do Xandão. Neste caso, vão decidir se abrem investigação por conta das mensagens do celular do Vorcaro. Já o caso do supremo André dos Céus Mendonça ficaria só para a outra terça. O que se diz na imprensa neste domingo é que tanto ministros a favor de Xandão como os que são contra estão achando melhor deixar esses julgamentos para novembro, depois das eleições.
No primeiro turno?
Flavitcho viu as pesquisas e já anda espalhando por aí que dá para ganhar no primeiro turno se atrair o voto útil dos outros candidatos de direita. Como se viu nas pesquisas destas semanas, Flavitcho está empatado com Lula tanto nas intenções de voto de primeiro turno quanto de segundo turno.
Edinho Silva, presidente do PT e coordenador da campanha, já disse durante a semana que tudo mudou completamente nos últimos dez dias com as tretas supremas na rua. Por enquanto, parece que o eleitor está no modo voto antissistema e enxerga Flavitcho como sendo a opção (sim, darling, Flavitcho é totalmente sistema, mas o pessoal acha que o governo de plantão é o sistema).
As pesquisas desta semana serão importantes para saber se o Dark Horse vai voltar a ter efeito sobre a campanha de Flavitcho. As notícias sobre o caso ganharam força somente a partir da última sexta. Assim que o áudio foi divulgado, quando os candidatos ainda estavam sendo escolhidos pelos partidos, Flavitcho chegou a cair quase uns dez pontos nas intenções de voto. Mas agora já recuperou tudo.
Esta edição extra de domingo foi feita a pedidos dos leitores que estão nos enviando mil recadinhos no Pix da Tixa. E hoje ainda apareceu o povo de Cascavel. Beijo. E ainda tem gente querendo a Tixa para presidente.
Cada real importa. E se você acha que a Tixa vale R$ 1, vale R$ 2, vale R$ 50, vale R$ 100, vale R$ 1000, manda o pix e um recadinho. Lóve you, com acento.
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